quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mais vivo por ser pai

Querido Yuki,

29 semanas e 3 dias. Só mesmo pais em período gestacional para contar o tempo dessa maneira... Você continua se desenvolvendo muito bem e, a cada dia, mexe-se mais na barriga de sua mamãe.

Muito legal sentir você, especialmente a noite quando o mundo parece se silenciar para que nós possamos brincar. Não sei aí dentro, mas aqui fora damos gargalhadas com as brincadeiras. Aliás, sua mãe e eu somos bons nesse negócio de gargalhar, hein... acho que você também será... Sua mãe, então, é imbatível nos solos de gargalhadas. Ela é daquelas que, por exemplo, no cinema, fica rindo alto até muito tempo depois da tal cena engraçada ter passado. Sempre tenho que contê-la para que os demais expectadores possam continuar assistindo o filme... impressionante! (rsrsrs)

Mas mudando de assunto, esses dias estava conversando com meu chefe sobre as questões relativas à paternidade. Como os filhos dele já são adultos, cada episódio que ele compartilhou comigo era carregado de uma saborosa nostalgia. Em certa altura de nossa conversa, ele me confidenciou: "Ter filhos foi, sem dúvida, a melhor coisa que me aconteceu. Sinto-me mais vivo e realizado quando penso que sou pai." Puxa vida, pensei, é exatamente isso o que eu já sinto! Imagino então como será quando você nascer...

É quase que um ditado popular o seguinte pensamento: "Os filhos tornam os pais pessoas melhores". Particularmente, discordo. Fosse assim tão automático, o mundo já seria bem diferente hoje. Penso que o que torna as pessoas (pais ou não) melhores são elas mesmas e se assim desejarem. Pois bem, eu desejo. Desejo e procuro tornar isso real em cada ação desde que soube de você. A diferença aqui está no fato de que desejo a cada dia ser melhor não por causa de você, mas para você e para o mundo.

Faltam agora poucas semanas para o seu nascimento. Sua mãe e eu estamos super ansiosos e felizes. Mas, esperamos que você não tenha pressa e espere o tempo mais adequado chegar, o que deverá ser no início de outubro.

Ao acompanhar vocês naqueles dias de internamento e viver tudo aquilo, tomei uma decisão. Quero sim assistir e acompanhar todo o parto. Quero estar ao lado de sua mãe o tempo inteiro e quero ver você chegar ao mundo. Quero ser o primeiro a te pegar no colo e levá-lo para pertinho de sua mãe. Antes daquele episódio, pensava radicalmente diferente. O que me fez mudar de idéia foi perceber que nesse importante momento, o menos importante é o que me é mais confortável ou agradável. O que quero demonstrar é que estarei, eterna e incondicionalmente, ao lado de vocês.

Amo você, meu filho!

Seu pai.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sustinho!

Querido Yuki,

Muita apreensão nos últimos dias... A sensação é aquela em que o peito fica apertado e o coração inquieto, meio que querendo pular pela boca.

Na sexta-feira (08) fomos novamente à médica. Com você, tudo, em princípio, ocorrendo normalmente, mas a sua mãe se queixou sobre uma certa ardência no momento de urinar. A médica, então, solicitou a realização de exames de urina.

No sábado pela manhã, o primeiro susto. Fui acordado com a sua mãe gritando de dor... Que aflição, meu filho! Saímos em disparada para algum hospital. O mais próximo, público. Optamos ir nesse por ficar a apenas 5 minutos de casa e por ser especializado no atendimento à gestante - dito "referência no atendimento à gestante". Além disso, como a intenção era de que sua mãe fosse atendida com a maior rapidez possível, achamos (sua mãe e eu) que essa seria a alternativa mais inteligente...

Fomos até bem recepcionados. A recepcionista, muito simpática, e a enfermeira, cheia de boas intenções... O único problema é que havia apenas uma médica de plantão e que estava em meio a um parto... Uma única médica!

Aguardamos ainda por algum tempo, mas percebemos que aquele bebê que estava nascendo talvez conseguisse tirar a carteira de habilitação antes de sua mãe ser atendida. Bem, foi assim que rumamos para o hospital em que você irá nascer. Aí, vieram dois sentimentos antagônicos. Senti-me contente porque o atendimento lá foi imediato. Digamos que o hospital foi aprovado com louvor em nosso teste. Devo dizer, contudo, que me senti triste ao constatar tamanha diferença de estrutura entre o que é público e o privado. Definitivamente, sem comparações. Confesso que tinha alguma esperança mas, ao menos no presente, ela - a esperança-  morreu de algum "mal súbito", antes de receber o atendimento de direito, bem em frente à recepcionista.

Bem, mas voltando ao hospital privado, sua mãe (e você) foi internada por algumas horas para receber a medicação. A dor passou e fomos para casa.

Sábado a noite, sua mãe apresentou febre. Passamos o domingo todo com a sua mãe alternando momentos de melhora e piora.

Na segunda pela manhã, levei o exame de sua mãe para o laboratório. O resultado, porém só sairia na quinta-feira. Durante o restante do dia, ora sua mãe ficava bem, ora piorava. Sentia dores e também apresentava febre.

Na terça-feira, logo cedo, voltamos ao hospital. Após alguns exames clínicos, a notícia: seria necessário o imediato internamento. E, dessa vez, vocês não ficariam apenas algumas horas, mas dias. "Puxa vida, dias?", pensei. Senti como se meu coração tivesse ficado bem pequenininho. Não era dor, mas um forte desconforto tomou conta de meu peito.

Deixar sua mãe e você internados, meu filho, não me foi nada fácil. Queria tirar tudo de ruim que ela estava sentindo... queria poder trocar de lugar com ela. Como não tenho esse poder, procurei me concentrar no fato de que, racionalmente, seria o melhor a se fazer pois, no hospital, sua mãe receberia todos os cuidados médicos necessários e você estaria seguro. A essa altura, o cérebro já havia absorvido e processado a informação... o restante do corpo, contudo, continuava angustiado. Acho que com toda aquela correria, o cérebro esqueceu de passar a informação ao coração porque ele ainda não estava nada bem. Ou, talvez tenha até passado a informação mas, definitivamente, seus argumentos racionais não foram suficientes para fazê-lo se aquietar.

Para sua mãe, tratei de botar um sorrisinho no rosto (o melhor que consegui arrumar assim de repente) e tentei passar tranquilidade, enchendo-a de todos os argumentos racionais.

Filho meu, foram 4 looooooongos dias. Fiquei ao lado de vocês o máximo de tempo que consegui. E, do lado de fora, procurar tomar todas as providências para que vocês - especialmente a sua mãe - ficassem tranquilos e seguros. Sua mãe, mesmo naquelas circunstâncias, ainda demonstrou preocupação com seus compromissos acadêmicos e profissionais. Assim, procurei ajudá-la em tudo, suplicando para que se concentrasse apenas em ficar bem.

A primeira grande notícia que recebemos foi a de que com você estava tudo bem. Assim, só restávamos aguardar que a sua mãe se recuperasse logo. Você não vai se lembrar, mas contei a você tudo o que estava acontecendo, pedi que continuasse bem e que, no que pudesse, ajudasse a sua mãe a ficar tranquilinha.

Cada um dos 4 dias foi incrivelmente longo e intenso para mim. Ainda assim, não me permiti perder a alegria em cada coisa que fiz. Infelizmente, não foi possível passar as noites com vocês. Então, na solidão da madrugada, como a adrenalina não me deixava dormir, orei pela sua saúde, pela mais breve recuperação de sua mãe e para eu ter ainda mais força e coragem nos desafios que estava enfrentando naqueles dias. Orei, com ainda mais intensidade que de costume, pela felicidade de todas as pessoas do mundo e pela construção de uma sociedade pacífica, civilizada, justa e repleta de humanismo.

Enfim, chegou sexta-feira (15). Logo cedo, recebemos a notícia de que vocês teriam alta. Foi uma correria só (rsrsrs). Um dia desses sua mãe pode lhe contar das minhas aventuras para "livrar" vocês (rsrsrs) do hospital. Além disso, dei um "trato" no quarto para que vocês se sentissem bem acolhidos no tão aguardado retorno.

Filho meu, como foi boa a sensação de buscar vocês e trazê-los para casa sãos e salvos. Uma vitória que, especialmente em cada detalhe, certamente ficará gravada eternamente em nossas vidas.

"Companheirismo"... Palavra comprida e de significado muito profundo. Para ser vivida, verdadeiramente, há que se romper diversas barreiras, especialmente àquela interior: do egoísmo, do egocentrismo. Ser um verdadeiro companheiro(a) de alguém vai muito além do que o dicionário nos conta. Para mim, "companheirismo é amor incondicional ao outro". E, nas palavras-chave - "incondicional" e "ao outro" - o desafio a ser perseguido.

A parte do  "ao outro", parece bem simples, mas não é. Isso porque o ser humano tem a tendência - até mesmo instintiva - de se colocar antes do outro. Por sua vez, é no "incondicional" que o "bicho pega" ainda mais. Embora não gostemos de admitir, é também nossa tendência impor uma série de condições para que alguém seja honrosamente agraciado com o nosso afeto. Sempre somos mais "especiais" que alguém.

Seja como for, penso que está aí uma causa que vale a pena se dedicar: tornar-se um digno e verdadeiro companheiro do máximo número de pessoas. Se você conseguir ser companheiro de uma única pessoa, porém, já será um grande legado de sua existência.

Como é bom ter vocês em casa de novo!

Amo você!

Abração bem forte,

Seu pai